roda mundo

se tem uma cena marcante e encantadora da infância é criança girando em torno de si própria. o giro vem sempre com uma risada ou um cantarolar, vai num crescendo, até que os pés perdem o compasso, se abrem em passos descoordenados e cair parece o melhor desfecho, depois de enfrentar o desafio de tentar ficar em pé. sentadas, ainda vendo tudo bagunçado, elas dão risada, as mãos se levantam como que para sentir a gravidade e reencontrar o eixo, até que tudo volta para o lugar. como espectadora, não deixo de me emocionar com uma vivência dessas, percebendo que a experiência de ter um corpo e de colocá-lo em movimento e em relação com o mundo é um prazeroso fim em si mesmo.

os grandes mestres do mundo infantil costumam dizer que tudo o que uma criança faz espontaneamente é porque ela precisa fazer. girar é uma atividade que as crianças pequenas fazem constantemente e, logo, o fazem porque precisam tanto quanto respirar e alimentar-se.

e não é só girar. elas também balançam, pulam, ficam de ponta cabeça e encontram diferentes formas de ficar tontas, colocando o mundo fora de foco. e assim estão fazendo um trabalho dos mais sérios para seu desenvolvimento: a construção do sistema vestibular, base do equilíbrio. nesse tipo de movimento, elas vivenciam o espaço e a gravidade, não de uma forma abstrata e explicativa, mas a partir do próprio corpo. o equilíbrio permite o pleno desenvolvimento da habilidade de perceber e interpretar todas as possibilidades de movimento de dentro para fora e de fora para dentro. é uma competência completa, que precisa ocorrer em plena sintonia com a visão, a audição e as informações vindas de dentro do próprio corpo (propriocepção). quando vemos algo se movendo em nossa direção, rapidamente calculamos a velocidade que o objeto chegará até nós e, se for uma bola por exemplo, nosso corpo se organizará para pular e pegá-la no momento exato. sem um sistema vestibular funcionando a pleno vapor, nos perdemos tentando organizar as informações que chegam de fora e de dentro, cada vez que algo se move e ficamos inseguros, nos recolhemos.

um sentido de equilíbrio maduro é o que nos permite sentir confortável dentro do próprio corpo, tendo também controle sobre ele. mas isso precisa acontecer de maneira inconsciente, liberando a atenção para as outras atividades. quando nos sentimos desequilibrar, não podemos fazer nada além de cuidar de cada passo ou movimento para manter o controle e não cair. quando o equilíbrio trabalha por si, toda a atenção pode ser voltada para outras coisas, inclusive aprender e criar. sei onde estou, conheço o mundo e conheço meu corpo - já podemos nos relacionar de igual para igual.

me pergunto se isso tudo também explica o fascínio por objetos que giram, como peões e iô-iôs, brinquedos tão simples e milenares que nunca deixam de se reinventar; bambolês para fazer girar com o balanço do corpo; ou mesmo jogos de equilíbrio de peças, cuja graça está em manter tudo no lugar quando as coisas balançam querendo cair. a criança gosta de girar o próprio corpo mas gosta de ver tudo a girar também, quando então é ela que, estática, observa de fora o movimento que tem o giro, podendo concluir que pode confiar no mundo, ele se mantém inabalável.

diferente dos adultos, as tarefas mais importantes são feitas pelas crianças com enorme prazer. e é lindo poder acompanhá-las na maestria de fazerem o que precisam para crescer sem que ninguém precise ensinar.

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P.S.: nosso fascínio por coisas que balançam nos levaram a criar dois projetos que brincam justamente com o equilíbrio/desequilíbrio: o Afogados e o Pierrô).

fonte:

https://www.childcareexchange.com/eed/issue/3346/

imagem1: Going for a spin (Flickr Creative Commons)

imagem 2: http://circlesofjoy.org/wp-content/uploads/2011/12/spinning-child.jpg

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