olho para que te quero

olhar o horizonte é uma prática que está se tornando antiquada. primeiro, porque nas grandes cidades quase não temos acesso a essa linha que nos faz lembrar o infinito. mas também porque nossos olhos se interessam cada vez menos pelo que está distante. a tela do celular mostra tudo sem que eles precisem trabalhar.

conversamos sobre isso essa semana, depois de ver uma matéria no jornal dizendo que a miopia está crescendo no mundo todo, chegando a atingir 90% dos jovens em alguns locais. miopia é vista curta. bem sintomático ser o problema que mais cresce na nossa época. segundo a reportagem, "alguns dos fatores de risco da miopia são a educação superior, o esforço visual de curta distância, a vida na cidade e a falta de tempo ao ar livre" (jornal El País).

como não nos voltarmos para as crianças pequenas, diante desse cenário? criança olha longe e sai correndo para alcançar o que viu. quando chega perto, examina tanto, que se torna especialista naquilo que lhe chamou a atenção, quase como se comesse com os olhos. e logo é hora de buscar novos horizontes outra vez. avistar mais longe, encontrar o novo, se apropriar dele.

no brincar livre, principalmente ao ar livre (em que não há estímulos artificiais), a criança exercita o olhar, encontra detalhes e cria com o que vê o mundo que precisa para se desenvolver. é ela quem seleciona do ambiente o que interessa para a brincadeira e a escolha não é à toa. assim, o brincar se desenvolve em relação com o que está fora, mas há sempre algo que puxa para dentro - ou algo que vem de dentro buscando fora o que precisa. como se os olhos atentos trouxessem também a visão para dentro e de dentro. o que me toca chegando pelos olhos, vira parte minha, me explica meus mistérios, traduz me crescimento.

na teoria do conhecimento de Piaget, já estava essa parte intrínseca de conhecer o mundo: quando um novo evento ou novo elemento chega à criança, ela o assimila (apreende cognitivamente e organiza o ambiente externo), mas não somente, é preciso que também o acomode. ou seja, tudo que ela já conhecia e já havia organizado, precisa se reorganizar para acomodar a novidade. conhecer é tornar próprio o que antes era só do mundo.

para viver plenamente esse processo, é preciso acalmar o olhar, deixá-lo pousar. exercitar a observação, não se chegar a nada para então já se ver mudado. as crianças pequenas sabem fazê-lo. nós adultos já não, mas podemos tentar.

a médica antroposófica Elaine Marasca G. da Costa traz uma imagem muito bonita sobre isso, de que a visão é nosso sentido mais consciente, e por ela a luz externa do Sol encontra a luz interna - por isso os olhos brilham!

aprender o mundo é trazê-lo para dentro e torná-lo seu - quando isso ocorre, um brilho se acende. o olhar não pode ser curto, senão o mundo fica pequeno. nem raso, senão não entra fundo. e precisa ser de verdade, com liberdade, a seu tempo.

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essa é a reportagem sobre o crescimento da miopia: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/19/ciencia/1468940772_133774.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM

imagem: http://english.pku.edu.cn/News_Events/News/Campus/12017.htm

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