como que brinca?

uma das perguntas que mais ouvimos nos bazares de final de ano foi essa: como que brinca? a gente respondia: ah, pode fazer assim ou assado, serve para isso ou para aquilo. mas repetindo a cada vez esse tipo de resposta, tudo foi perdendo o sentido. não existe ensinar a brincar! 

 

percebemos como estamos pouco acostumados a ter um objeto nas mãos sem instruções, que não dá para ligar e ele começar a funcionar e dizer a que veio. um objeto que não tem resposta, mas traz perguntas - o que vamos fazer hoje? o que você está pensando para nós? - é algo cada vez mais raro em tempos de tablets e videogame. e nós simplesmente não sabemos o que fazer com eles. 

 

há uns meses circulou pela internet uma reportagem sobre um jardim da infância na finlândia que aboliu os brinquedos, substituindo-os por pedaços de madeira, panos, bolas. dizia o autor que a principal consequência foi as crianças brincarem mais. como um adulto se comportaria em um ambiente assim? ia ter que aprender com os mais novos. eles sabem, sempre sabem o que fazer com alguns tocos de madeira e um pedaço de pano. e a resposta sempre será diferente.

 

foi mergulhando nessas indagações e criando nossos primeiros brinquedos que olhamos para nós mesmas. a princípio, achamos totalmente normal alguém ver um de nossos objetos e perguntar como que brinca. mas logo veio uma inquietação, um desconforto, de que a resposta dada nunca era a definitiva, nunca era suficiente, não daria conta, tinha alguma coisa estranha nela. é que qualquer que fosse a forma de brincar que a gente sugerisse, era somente uma forma, e isso empobrecia o projeto. 

 

 

 

 

em literatura, diz-se que uma obra existe somente no momento em que é lida, já que o leitor é também criador ao se envolver com o que lê. gostamos dessa ideia e achamos que com o brincar essa relação segue o mesmo caminho, de uma maneira mais profunda ainda. um objeto terá o destino que lhe der quem por ele passar a mão, como se ganhasse vida própria através da vida de cada um. 

 

a maior prova disso foi o que uma menina de 10 anos nos mostrou. ela ganhou um kit da nossa bicharada, 8 bichinhos. foi uma de nossas primeiras clientes, estava lá no dia do nosso lançamento. diz que em dois dias ela inventou uma porção de coisa com os bichinhos: primeiro, ficou craque em empilhar todos sem cair nenhum; depois, deu nomes criativos para cada um (o elefante se chamava héliofante, a girafa girofonda, e assim por diante); no dia seguinte se preocupou em alimentá-los, mas para isso foi preciso pesquisar sobre o que cada um come, e depois conseguir grama para os herbívaros, formigas para o tamanduá, e até inventar que o tatu iria adorar um prato de amendoim. parece que o rinoceronte aprontou demais e terminou a manhã de castigo no banheiro, enquanto os outros foram se divertir no quintal.

 

o destino do brincar sem manual e modelo traz para perto a experiencia livre. ativa a imaginacao que cada um respirou naquele momento. território rico de fantasia e criatividade. aprendemos tanto e devemos cada vez mais deixar o caminho se formar no caminhar da brincadeira.    

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