brincando que se cresce mais

durante muito tempo brincar foi considerada uma atividade inferior, assim como toda a vida das crianças, vistas somente como indivíduos imaturos, que precisariam se tornar adultos o quanto antes. é a partir do século XVIII que a infância começa a ser considerada como um período único, com suas próprias características, a serem estudadas mais a sério. assim, a relação com o brinquedo e o brincar também começou a ser elaborada.

a infância ganhou diversos significados e hoje em dia tem sido cada vez mais valorizada, o que não significa que as melhores práticas de respeito ao desenvolvimento infantil estejam acontecendo. como mãe, acho extremamente difícil ter a responsabilidade de proporcionar ao meu filho um ambiente saudável para ele crescer. muitas vezes, a gente não consegue dar o melhor de si e tudo o que gostaria era ligar a tv e descansar desse desafio. todo mundo passa por isso, e, como se fosse recompensar as falhas, as crianças ganham de seus pais e parentes muitos produtos, brinquedos, doces, alimentos favoritos. as brincadeiras acabam se restringindo ao mundo dos eletrônicos, que as coloca em uma situação passiva, sem movimento, nem mesmo dos músculos dos olhos, que precisariam se exercitar - olhar para o longe e o perto, o lá em cima e o lá embaixo, focar e desfocar em diferentes lugares.

por mais desafiador que seja, é preciso cuidar do que apresentamos aos nossos filhos. pensar na qualidade dos materiais e no que eles podem proporcionar quando a criança se relaciona com eles. quanto mais amplas forem as possibilidades do brincar, mais saudável será a brincadeira. o motivo para isso é que, se a própria criança inventar a brincadeira e se engajar nela, com toda sua sabedoria, ela estará criando o que precisa para se desenvolver. isso não significa que a presença do adulto não seja importante: o pai e a mãe podem e deve trilhar juntos esse caminho, deixando que o filho seja o grande guia das descobertas. conforme a criança cresce, cada vez mais irá brincar sozinha, inventar mundos e histórias, mas nem sempre elas fazem isso sem companhia.

no livro “ A formação social da mente”, Vygostsky vai mais fundo: "no brinquedo, a criança sempre se comporta além do comportamento habitual de sua idade, além de seu comportamento diário; no brinquedo, é como se ela fosse maior do que é na realidade. como foco de uma lente de aumento, o brinquedo contém todas as tendências do desenvolvimento sob forma condensada, sendo, ele mesmo, uma grande fonte de desenvolvimento.” quando leio isso, me vêm à mente a imagem do meu filho de um ano e meio me ajudando com os afazeres da casa, a forma como ele se abaixa com cuidado para passar o aspirador embaixo da cama e não esquecer de nenhum cantinho, ou como me imita com a bucha para lavar louça. não passam de brinquedos que ele leva muito a sério na hora de utilizar e eu o vejo crescendo tão lindamente nesses momentos.

se um brincar ativo e real pode ser tão importante assim, que tal pensar melhor antes de liberar o joguinho do celular?

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